Um Instante

Quando atravessei o espaço vazio daquela porta, meu peito guardava um coração tão descompassado que tremulava tal qual uma bandeira agitada em uma noite de tempestade. O cenário armado a minha frente já me fora revelado, quando, anos atrás, interpretei toda a premeditação do destino. E então diante de um quadro inevitável, esperei que o impacto não fosse tão arrasador, porem um drama encenado é sempre muito mais forte que a sua concepção. E assim, me impondo a maior resistência possível, fui sem nenhuma compaixão do destino, remetido de volta àquelas quatro paredes as quais havia abandonado por não suportar a culpa.

As paredes do meu passado não me aprisionavam, muito pelo contrario, me davam ciência do poder do meu saber, capaz de modificar vidas com algumas palavras e uns poucos gestos. No auge da minha verbalização eloqüente para aquela restrita platéia, observei, sentado junto a porta de entrada, um garoto de uns dezesseis anos que me fez interromper a fala momentaneamente. Carregava no olhar a angustia de um adulto muito sofrido.

Um cachorro que houvesse apanhado muito, morderia a primeira mão estendida para alimentá-lo. Foi exatamente o que senti naquele momento e tentei de todas as formas me preservar. A revolta de uma curta longa vida estava estampada naquela face que poderia ser bela, não fosse a modelagem que a vida dura havia esculpido em seu rosto. Ia retomando a minha fala, quando ouvi.

– Professor?

O garoto a porta me observava. Sua doce voz era um contra-senso. Tão sensível, que lembrava as pétalas de uma rosa que acabasse de desabrochar. Engasguei com o “sim” que iria proferir.

– O senhor realmente acha que uma pessoa assim, que nem eu. Tem alguma chance?

De pé junto a parta, aquele jovem era a imagem da dignidade. Ali, ele era representante de uma carência resoluta, com uma força pronta a arder em chamas tão logo fosse encontrado um catalisador capaz de iniciar sua primeira ignição. Mas infelizmente, havia um erro na energia da matéria a qual fui construído. O humano em mim, ainda não havia sido ligado para que pudesse passar as mãos naqueles cabelos crespos e perguntar como poderia ajudá-lo.

Por medo, por preconceito ou por puro machismo, não fui capaz de responder, apenas um sorriso me aflorou aos lábios e o rapaz mergulhado na decepção voltou a sentar-se.
A solidão do meu quarto testemunhou as lagrimas que me deitaram a face na vergonha insalubre dos meus questionamentos. Porem uma coragem inumana exalou das minhas orações, onde, um Deus consciencioso me fez ver o quão falsos eram as minhas verdades. Acatei essa consciência, ciente de que no próximo encontro daria a ele todo meu amor complacente, não levando em conta a contra mão de suas opções.

Planejei uma abordagem onde não houvesse constrangimentos para nós ambos. Entretanto descobri, tardiamente, que o tempo não espera por uma atitude a ser tomada. Posteriormente descobri que fora atraído por forças poderosas, forças essas que sempre buscam se alimentar, onde o alimento menos existe. E agora impotente, só me restou a fuga.

Segundo a intimação da delegacia. No bolso daquele jovem, agora inerte no mármore gelado, haviam encontrado um papel com meu nome, telefone e endereço. E ali estava eu, constatando que a vida está sempre nos levando a estabelecer contato com nossos piores monstros.

Powered by Blogger | Converted by BloggerTheme