Fabricando um Romance
Não existem regras para se escrever bons textos. E aquelas que são ensinadas nas escolas, normalmente só servem para inibir a criatividade. A maioria dos adultos acha difícil e desagradável o ato de escrever, sem falar do constrangimento ao se expor. Enquanto uma criança recém alfabetizada encara essa tarefa como sendo uma atividade normal.
O fato do adulto ser tão bloqueado com relação a produção textual, se deve as correções que tiveram em idade escolar. Onde desde cedo seus trabalhos voltavam cheios de rabiscos, indicando que não foram bem sucedidos.
Portanto se existisse uma regra para se produzir um texto, essa seria a de como se perder o medo de escrever. Atualmente existem escolas de escrita criativa, que tem como objetivo forçar as pessoas a perderem os bloqueios relacionados a produção textual.
Segundo José Saramago, escritor português, todos nós somos escritores, a diferença é que alguns escrevem e o restante não.
Um bom texto absorve o leitor do início ao fim, e quando este final acontece, ele sente-se satisfeito. Para isso devem-se observar três características.
a) Conhecer o leitor.
b) Conhecer o assunto.
c) Conhecer as técnicas de escrita. (Estilo).
Escrever uma carta se torna mais fácil, pois o redator já conhece o leitor e o assunto, faltando apenas o estilo, que vai depender do tipo de carta que se deseja escrever. Dessa mesma forma escreve-se um livro. É como cozinhar profissionalmente, tudo deve ser preparado de acordo com o gosto do freguês, quanto mais o cozinheiro conhecer o cliente, mais ele será capaz de preparar uma boa refeição.
Escrever é projetar imagens na mente do leitor. E essas imagens devem ser partes construídas claramente e outras apenas insinuadas, deixando que o leitor também interaja criando as suas próprias imagens.
Segundo a editora Sonia Belloto, existem quatro tipos de textos:
a) Texto autista: É aquele que tem significado apenas para o autor. Diz respeito apenas ao mundo do escritor, não atingindo o leitor.
b) Texto de vaidade: É aquele que o autor escreve para mostrar que conhece o assunto profundamente, mas não desperta a atenção do leitor. (Universidades).
c) Texto bem-intencionado: Esse texto pretende transmitir idéias interessantes para prender a atenção do leitor, mas lhe falta técnica para conseguir.
d) Texto planejado: O autor escreve de forma eficaz. Sabe as característica do leitor que pretende atingir, domina o assunto e aplica técnicas para torná-lo interessante.(Perfil do leitor).
Antigamente o editor era quem se encarregava de otimizar o livro antes de mandá-lo para a gráfica. Devido a grande quantidade de material que chega as editoras, o editor tornou-se apenas um encarregado de separar o material com potencial daquele será rejeitado.
Ainda segundo Sonia Belloto, as pessoas devem escrever assumindo seis personagens do processo criativo.
a) O Garimpeiro : Esse personagem se encarrega de separar as pedras preciosas em estado bruto.
b) O Planejador – Este constrói a estrutura sobre a qual o texto será desenvolvido.
c) O Redator – Ele escreve o texto de acordo com o planejado.
d) O Copidesque – A função dele é analisar todo material e efetuar as melhorias possíveis. Tudo de forma a não estragar o trabalho dos personagens anteriores.
e) Gerente de prazos – Este estipula um prazo para que todo trabalho fique pronto.
f) O Divulgador – Este é o encarregado de apresentar o trabalho para que o público tome conhecimento que ele existe.
Não se deve escrever como os antigos escritores, se estendendo nas descrições. As pessoas hoje dispõem de pouco tempo e se acostumaram a frases mais resumidas, por isso é preferível se utilizar de frases curtas.
O leitor costuma criar sua imagem particular. A mente dele encarrega-se de preencher as lacunas do texto. Não há necessidade de se descrever totalmente, determinadas imagens ou fatos, pois ele já tem suas idéias preestabelecidas.
Diferentemente de uma criança, o adulto geralmente gosta de livros onde as ilustrações são feitas de palavras e não de gráficos. As formas mais eficazes de se ilustrar textos são as metáforas, as analogias e os exemplos.
A matéria prima para se escrever bons textos sempre foi e sempre será o apelo as emoções. Amor, ódio, dor, perda, culpa, solidão, medo etc. todos são fortes ingredientes para se fabricar bons textos.
A arte do escritor está em conseguir criar uma cena convincente na cabeça do leitor através da fala dos personagens. Os diálogos devem se aproximar o máximo possível da realidade do falante, levando-se em consideração tudo sobre o meio em que ele vive.
O dialogo é a descrição de uma conversa por intermédio da escrita, e deve necessariamente ser clara e precisa. A fala de um personagem dever estar de acordo com sua personalidade e a evolução dele na cena.
O escritor deve deixar bem claro quando ocorrer um diálogo e qual o personagem que fala. O travessão é a forma mais utilizada de apresentar um dialogo, no entanto também se pode empregado às aspas.
Normalmente os diálogos são acompanhados de verbos de expressividade como, disse, sugeriu, exclamou, confessou etc.
De uma forma geral os diálogos não devem ser extensos, e se isso acontecer o melhor será dividi-lo em dois, com alguma indicação do fato para poder exercer o corte.
Quando se desenvolve uma estória, pode-se estabelecer a narrativa em primeira ou terceira pessoa. Na primeira pessoa um dos personagens é quem narra a historia. Na terceira pessoa temos alguém narrando a historia fora dela. Chama-se narrador onisciente, aquele que tudo sabe sobre os personagens. A historia ou parte dela também pode ser narrada em função do ponto de vista de um personagem, neste caso apesar de ser em terceira pessoa o narrador naquele momento conhece apenas o personagem que tem o foco da narrativa.
Através dos diálogos o escritor cria imagens na cabeça do leitor. E se o dialogo for consistente, despertará a atenção dele. Não é necessário o diálogo conter tudo que se deseja passar ao leitor, o subtexto também despertará muito interesse.
O dialogo é capaz de despertar grandes conflitos e dará ao escritor a chance de criar grandes cenas. Diz-se que escrever romance, é a arte de criar conflitos.
Os personagens devem ser planejados conhecendo-se tudo sobre eles. Segundo Constantin Stanislaviski se constrói um personagem para ser interpretado, da mesma forma que para ser colocado em um romance. Os personagens devem ser amados tanto pelo escritor quanto pelo leitor.
Quando um ator interpreta uma cena de forte emoção, não pode se entregar totalmente, é necessário que parte dele permaneça controlando esta emoção para que ele não perca o caminho da cena. Um escritor também é capaz de se envolver tão profundamente em seu texto, que poderá perder o rumo traçado no seu projeto.
Para se escrever uma historia e conseguir algum sucesso é necessário que haja um planejamento antecipado e detalhado. Uma historia não planejada fica dispersa, e será rejeitada pelo leitor por não prender sua atenção. Está provado que não existem histórias ruins e sim, mal contadas.
Joseph Campbell em “A Jornada do Herói”, mostra que não importa quem ou que seja o herói da historia, mas sim o fato de que toda historia possui um herói, que será um personagem, individual ou coletivo, em relação ao qual a historia se desenvolve. E então ele criou seu modelo “Jornada do Herói”, constituída de doze etapas.
1) Mundo comum – O herói é apresentado em sua rotina normal.
2) Chamado a aventura – Acontece algo que quebra sua rotina, ele precisa fazer algo.
3) Recusa do chamado – O herói tenta encontrar uma desculpa para permanecer na sua inércia.
4) Encontro com o mentor – Alguém, alguma coisa ou uma situação o faz tomar uma atitude.
5) Travessia do limiar – Forçado ou espontaneamente o herói entra no mondo de situações especiais.
6) Testes aliados ao inimigo – Aqui se desenrola maior parte da historia, ele encontrara aliados e enfrentara inimigos.
7) Aproximação do objetivo – Aumenta a tensão quando ele se aproxima do final de sua jornada.
8) Provação suprema - Aqui ele enfrenta seu maior desafio, inclusive correndo risco de morte.
9) Conquista da recompensa – Agora ele conquista seu merecido premio.
10) Caminho de volta – O herói inicia o caminho de volta para seu mundo comum.
11) Depuração – Ainda pode enfrentar uma situação que ficou em aberto.
12) Retorno transformado – Pode ser observado todas as suas mudanças.
Com tudo que já foi exposto, qualquer pessoa pode realmente escrever um livro. No entanto, para se escrever um bom livro há que se observar outros detalhes, que poderá ser objeto de estudo em uma outra ocasião.


