Alma de Cemitério
Quatro horas da manhã, o galo cantou anunciando um novo dia. A mãe de Rubinho levantou e seguiu em direção a rede dele.
– Está na hora filho. Vá buscar os animais.
Rubinho, sonolento, levantou da rede e dirigiu-se ao banheiro fora da casa. Na volta já com o rosto lavado e mais desperto, observou que dos três animais, apenas dois permaneciam no quintal. Sentiu um tremor na barriga, pois sabia que mais uma vez teria que entrar no cemitério para buscar o jumento branco.
– Mãe o branco sumiu de novo. Quando será que vão consertar o muro da porcaria desse cemitério?
– Não blasfeme filho, o cemitério é um lugar sagrado.
A residência da família Costa, na pequena cidade de Mundaú, localizava-se próxima a igreja. Nos fundos um grande quintal, com uma cerca a esquerda e o muro do cemitério a direita. O qual veio ao chão no ultimo inverno, provocado por uma forte chuva. Desde então o garoto Rubinho tem passado maus pedaços.
Como em todas as madrugadas, o rapazinho passou a procurar um lampião, mas não encontrou. Então pegou o primeiro candeeiro que encontrou, acendeu, e desceu os degraus da cozinha que levava ao quintal. Protegia o pavio aceso com a mão, evitando que o vento o apagasse. Chegando a entrada do cemitério sentiu um frio na espinha, acompanhado um forte arrepio que o estremeceu todo.
Ninguém entra num cemitério impunemente, as alma que ali habitam, estão sempre de prontidão para protegê-lo dos vivos invasores.
O garoto acreditava piamente nesta estória, mas era corajoso e respeitoso, benzeu-se rezou uma Ave Maria, ofereceu as almas do purgatório e foi em frente. Não encontrava seu animal em parte alguma.
Com a mão esquerda segurando o lampião, e a outra protegendo a chama, caminhou lentamente pelo lado direito de uma grande e branca catacumba. Quando sua mão fez a curva na esquina da sepultura, ouviu aquele som horripilante,
– vrummmm.
O candeeiro apagou-se e ele sentiu um vente quente na mão que se propagou por todo o braço. O resto do corpo era puro gelo, estava petrificado, nenhum músculo ele conseguia mexer. Pensou que tivesse morrido, mas sabia que seu coração continuava funcionando, pois ouvia suas batidas.
Não percebeu quanto tempo ficou ali parado, parecia uma eternidade. Descobriu que não seria para sempre, pois sentiu que já podia se mexer. Tinha certeza que o pior já havia passado por isto o encheu de coragem. Esticou o pescoço além da esquina da tumba e olhou a esquerda. Então avistou o jumento branco com o focinho chamuscado pela fumaça da sua grande lamparina.
– Seu jumento desgraçado, eu devia te encher de porrada.
Ele nunca havia batido nos animais, e não iria começar agora. Arrastou o branco para o quintal e o prendeu ao pé de ciriguela. Feliz por ter acabado tudo bem dirigiu-se a cozinha, na certeza de que sua mãe já havia preparado seu café. Subiu as escadas e puxou a porta, que dividida ao meio na horizontal, abriu para fora.
Quando passou por ela, puxou a parte inferior para fechá-la, mas não conseguia alguma coisa o impedia. Sentia vontade de olhar para trás, mas não tinha coragem. Sabia que a qualquer momento outra mão iria se sobrepor a sua. O medo era muito grande, mas resolveu que desta vez não ficaria paralisado, não senhor. Encheu o peito e deu um impulso para sair correndo, iniciou o movimento mais caiu de cara no chão e foi então que entendeu tudo. Seu chinelo havia ficado preso em baixo da porta.


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