Quando o amor decresce

            Todos nós temos amizades com casais que se amam ou que se amaram. Percebemos claramente o momento em que as paixões deles transformaram-se em amor ou simplesmente desaparecem feito roçado novo no inverno que dependendo das chuvas, nem as cinzas das queimadas, restam.
No fundo não interessa quem, ou o que, foi responsável pelo aguaceiro que apagou aquela paixão incandescente, no entanto, há sempre alguém tentando reavivar antigas chamas com algum tipo de combustível, sabe-se lá tirado de onde, tal fato aconteceu com o meu amigo.

Carlos é daqueles que tenta de todas as formas encontrar defeitos nele próprio, para justificar o fato da outra pessoa diminuir a afetividade para com ele. E sempre procura um jeito absurdo de tentar incendiar novamente aquela paixão. Quando sentiu que sua parceira já não respondia a si com o mesmo entusiasmo, o rapaz se desequilibrou e então começou a fazer pesquisas para encontrar algo, que pudesse incendiar novamente o relacionamento deles. Foi assim que achou na internet algo muito interessante, segundo ele. De inicio achei um tanto grosseiro quando me informou que iria aumentar o tamanho do seu pênis, entretanto seu entusiasmo era tanto que acabei entendendo e no fundo torcendo para que desse certo, pois o futuro é sempre muito incerto.

Algum tempo depois nos encontramos para tomarmos umas cervejas, e enquanto isso, ele me falava do sofrimento a que fora submetido, com sua idéia extravagante. E o pior, não servira para absolutamente nada, pois sua mulher havia sido muito clara em afirmar em alto e bom som “Quem gosta de pau grande é veado, mulher gosta mesmo é de carinho”, e então arrumou as malas e foi embora com uma namorada que ele nem sabia que existia. O pobre ficou arrasado, eu também, confesso, pois tem tanta coisa que preciso aprender, e a mim parece que a balança pesa cada vez mais para o outro lado.

Alma de Cemitério


Quatro horas da manhã, o galo cantou anunciando um novo dia. A mãe de Rubinho levantou e seguiu em direção a rede dele.
– Está na hora filho. Vá buscar os animais.
Rubinho, sonolento, levantou da rede e dirigiu-se ao banheiro fora da casa. Na volta já com o rosto lavado e mais desperto, observou que dos três animais, apenas dois permaneciam no quintal. Sentiu um tremor na barriga, pois sabia que mais uma vez teria que entrar no cemitério para buscar o jumento branco.
– Mãe o branco sumiu de novo. Quando será que vão consertar o muro da porcaria desse cemitério?
– Não blasfeme filho, o cemitério é um lugar sagrado.
A residência da família Costa, na pequena cidade de Mundaú, localizava-se próxima a igreja. Nos fundos um grande quintal, com uma cerca a esquerda e o muro do cemitério a direita. O qual veio ao chão no ultimo inverno, provocado por uma forte chuva. Desde então o garoto Rubinho tem passado maus pedaços.

Como em todas as madrugadas, o rapazinho passou a procurar um lampião, mas não encontrou. Então pegou o primeiro candeeiro que encontrou, acendeu, e desceu os degraus da cozinha que levava ao quintal. Protegia o pavio aceso com a mão, evitando que o vento o apagasse. Chegando a entrada do cemitério sentiu um frio na espinha, acompanhado um forte arrepio que o estremeceu todo.

Ninguém entra num cemitério impunemente, as alma que ali habitam, estão sempre de prontidão para protegê-lo dos vivos invasores.
O garoto acreditava piamente nesta estória, mas era corajoso e respeitoso, benzeu-se rezou uma Ave Maria, ofereceu as almas do purgatório e foi em frente. Não encontrava seu animal em parte alguma.

Com a mão esquerda segurando o lampião, e a outra protegendo a chama, caminhou lentamente pelo lado direito de uma grande e branca catacumba. Quando sua mão fez a curva na esquina da sepultura, ouviu aquele som horripilante,
– vrummmm.
O candeeiro apagou-se e ele sentiu um vente quente na mão que se propagou por todo o braço. O resto do corpo era puro gelo, estava petrificado, nenhum músculo ele conseguia mexer.  Pensou que tivesse morrido, mas sabia que seu coração continuava funcionando, pois ouvia suas batidas.

Não percebeu quanto tempo ficou ali parado, parecia uma eternidade. Descobriu que não seria para sempre, pois sentiu que já podia se mexer. Tinha certeza que o pior já havia passado por isto o encheu de coragem. Esticou o pescoço além da esquina da tumba e olhou a esquerda. Então avistou o jumento branco com o focinho chamuscado pela fumaça da sua grande lamparina.

– Seu jumento desgraçado, eu devia te encher de porrada.
Ele nunca havia batido nos animais, e não iria começar agora. Arrastou o branco para o quintal e o prendeu ao pé de ciriguela. Feliz por ter acabado tudo bem dirigiu-se a cozinha, na certeza de que sua mãe já havia preparado seu café. Subiu as escadas e puxou a porta, que dividida ao meio na horizontal, abriu para fora.

Quando passou por ela, puxou a parte inferior para fechá-la, mas não conseguia alguma coisa o impedia. Sentia vontade de olhar para trás, mas não tinha coragem. Sabia que a qualquer momento outra mão iria se sobrepor a sua. O medo era muito grande, mas resolveu que desta vez não ficaria paralisado, não senhor. Encheu o peito e deu um impulso para sair correndo, iniciou o movimento mais caiu de cara no chão e foi então que entendeu tudo. Seu chinelo havia ficado preso em baixo da porta.

Aventura de amar

Era sexta-feira e a fabrica fechava mais cedo, Euclides estava eufórico, e não se importava que todos notassem a sua pressa.  Desejava chegar a sua residência antes que a filha voltasse da escola. Saiu da empresa quase correndo, tomou o carro e disparou em direção a sua moradia. Seguia dirigindo enquanto pensava que naquele dia poderia namorar bastante sem a criança atrapalhar os dois. A Dulcinéia já deveria ter tomado banho e se perfumado, com certeza estava ansiosa esperando por ele. Se é que não dormiu na banheira, coitada, pensou. Sabia que ela era meio atrapalhada, mas não tinha problema, ele a amava mais que nunca. Era verdade, nestes cinco anos de casado seu amor por ela só havia aumentado.


Euclides estacionou o carro na garagem ao lado da residência e fez a volta para entrar pela porta da frente. Como a casa ficava recuada, abriu o pequeno portão e caminhou pela passarela de cimento em direção a porta principal. O sol das quatro passando pelas folhagens do cajueiro, ao lado da casa, lhe punha sombras alternando claro e escuro no seu corpo. Um observador de dentro da casa diria que ele estava dançando ao caminhar. Entrou na sala e olhou em todas as direções, surpreendeu-se ao perceber que sua mulher não o estava esperando.
            – Dulcinéia! Dulcinéia! – Gritou, mas não ouviu resposta.
            Euclides passou de ansioso a preocupado, pois a esposa sempre o esperava na sala.
            – Tem alguma coisa errada. Será que ela esta dormindo? – falou para si mesmo.
            Dirigiu-se ao quarto do casal, não encontrou ninguém. Passou a procurar em todos os cômodos da casa. Sentiu o coração apertado, enquanto a cabeça começava a latejar. Pelo menos nestas partes ele sentia alguma coisa, enquanto que as pernas nada sentia. Chegou à área de serviço e encontrou sobre a pia uma toalha manchada de vermelho, cheirou para confirmar sua suspeitas.
            – Ah meu Deus, é sangue!
            Continuou sua busca, no entanto com dificuldade, pois não conseguia respirar direito, e o raciocínio também já não era muito claro. Entrou no banheiro e abriu a cortina da banheira. Deu um grito de pavor e quase desmaiou diante da visão dantesca que encontrou. As paredes começaram a balançar, e ele se segurou para não cair.
Avistou a louça branca da banheira toda manchada de sangue. Tinha ao fundo os contornos do corpo da sua mulher. Com certeza alguém a feriu, deixou a água secar e depois arrastou o corpo dela até o chuveiro. Foi o que concluiu Euclides no auge do desespero. Conseguiu recuar cambaleando até a sala. Quando olhou em direção ao portão, avistou Dulcinéia flutuando na sombra do cajueiro e vindo em sua direção.
            – Você veio me buscar meu amor. Me leve com você. Não me deixe sozinho – falou Euclides num fio de voz e em seguida desmaiou.
            Acordou com alguém batendo em seu rosto, e sentiu que estava com a cabeça em cima de uma almofada.
            – Acorde Euclides – falava Dulcinéia batendo levemente no rosto dele.
            Euclides abriu mais os olhos, e viu a esposa a sua frente segurando-lhe as mãos. Foi então que compreendeu que a mulher não estaria morta.
            – Onde você estava?
            – Fui à farmácia. Agora fique deitadinho que vou lavar a banheira.
            Dulcinéia se afastou com um pacote na mão onde Euclides leu “Absorvente íntimo”.   



Um Instante

Quando atravessei o espaço vazio daquela porta, meu peito guardava um coração tão descompassado que tremulava tal qual uma bandeira agitada em uma noite de tempestade. O cenário armado a minha frente já me fora revelado, quando, anos atrás, interpretei toda a premeditação do destino. E então diante de um quadro inevitável, esperei que o impacto não fosse tão arrasador, porem um drama encenado é sempre muito mais forte que a sua concepção. E assim, me impondo a maior resistência possível, fui sem nenhuma compaixão do destino, remetido de volta àquelas quatro paredes as quais havia abandonado por não suportar a culpa.

As paredes do meu passado não me aprisionavam, muito pelo contrario, me davam ciência do poder do meu saber, capaz de modificar vidas com algumas palavras e uns poucos gestos. No auge da minha verbalização eloqüente para aquela restrita platéia, observei, sentado junto a porta de entrada, um garoto de uns dezesseis anos que me fez interromper a fala momentaneamente. Carregava no olhar a angustia de um adulto muito sofrido.

Um cachorro que houvesse apanhado muito, morderia a primeira mão estendida para alimentá-lo. Foi exatamente o que senti naquele momento e tentei de todas as formas me preservar. A revolta de uma curta longa vida estava estampada naquela face que poderia ser bela, não fosse a modelagem que a vida dura havia esculpido em seu rosto. Ia retomando a minha fala, quando ouvi.

– Professor?

O garoto a porta me observava. Sua doce voz era um contra-senso. Tão sensível, que lembrava as pétalas de uma rosa que acabasse de desabrochar. Engasguei com o “sim” que iria proferir.

– O senhor realmente acha que uma pessoa assim, que nem eu. Tem alguma chance?

De pé junto a parta, aquele jovem era a imagem da dignidade. Ali, ele era representante de uma carência resoluta, com uma força pronta a arder em chamas tão logo fosse encontrado um catalisador capaz de iniciar sua primeira ignição. Mas infelizmente, havia um erro na energia da matéria a qual fui construído. O humano em mim, ainda não havia sido ligado para que pudesse passar as mãos naqueles cabelos crespos e perguntar como poderia ajudá-lo.

Por medo, por preconceito ou por puro machismo, não fui capaz de responder, apenas um sorriso me aflorou aos lábios e o rapaz mergulhado na decepção voltou a sentar-se.
A solidão do meu quarto testemunhou as lagrimas que me deitaram a face na vergonha insalubre dos meus questionamentos. Porem uma coragem inumana exalou das minhas orações, onde, um Deus consciencioso me fez ver o quão falsos eram as minhas verdades. Acatei essa consciência, ciente de que no próximo encontro daria a ele todo meu amor complacente, não levando em conta a contra mão de suas opções.

Planejei uma abordagem onde não houvesse constrangimentos para nós ambos. Entretanto descobri, tardiamente, que o tempo não espera por uma atitude a ser tomada. Posteriormente descobri que fora atraído por forças poderosas, forças essas que sempre buscam se alimentar, onde o alimento menos existe. E agora impotente, só me restou a fuga.

Segundo a intimação da delegacia. No bolso daquele jovem, agora inerte no mármore gelado, haviam encontrado um papel com meu nome, telefone e endereço. E ali estava eu, constatando que a vida está sempre nos levando a estabelecer contato com nossos piores monstros.

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